Categoria: Artigos
Data: 23/02/2026
Introdução/Contextualização
Há algumas semanas, na segunda mensagem desta série, eu contei a história de
um pastor presbiteriano que recebeu a informação de que uma das igrejas que plantou e
pastoreava estava se voltando para os mesmos erros de antes da conversão. Também
contei que aquele pastor escreveu uma carta com duras palavras de confronto e que ele
sabia que os entristeceria. Então, ele decidiu não visitá-los pessoalmente, pois seu
coração tinha receio de gerar algum tipo de confronto pessoal e mais tristeza.
Mas, dando continuidade àquela história, vale ressaltar que o objetivo daquele
pastor nunca foi gerar tristeza para a morte da relação que ele tinha com eles, e sim gerar
uma tristeza de reflexão, que os levasse ao arrependimento. Aquele pastor amava tanto
aquela igreja que aguardava ansiosamente encontrar seu seminarista para ter notícias
daquela igreja, crendo que, em algum momento, aqueles crentes receberiam bem suas
palavras, com obediência e temor.
Ao seguir para a Macedônia, esperando encontrar seu seminarista Tito, o amado
pastor encarou grandes tribulações. Lutas internas: medo de ser preso ou morto, anseios
de saber o que seria o amanhã, opressão espiritual; não só isso, mas ele enfrentou lutas
externas: recursos financeiros escassos, falta de oportunidades para fazer a missão,
perseguição e, ainda, estava sem notícias da igreja amada.
Diante de tamanha luta e tribulação, o que poderia trazer consolo àquele pastor?
Como Deus poderia consolar a vida daquele homem? É sob essa pano de fundo que
iremos nos aprofundar em 2 Coríntios 7.
1. Não está na contaminação e solidão (v. 1-7)
(v. 1) Paulo destacou no texto anterior uma promessa: que o Senhor tem seu povo
como filhos (6.18). Assim, é necessário purificar-se, e isso significa livrar-se do que
contamina o corpo e o espírito. Não é perfeição, mas é a busca de viver a vida do Pai.
Diante de tribulações, é muito comum buscarmos a Deus e desejarmos tê-lo como
pai. Porém, nos dias comuns, nos contaminamos exteriormente com palavras e atitudes
que mostram uma má conduta às pessoas à nossa volta, que nada têm a ver com o Pai,
afundando-nos na impureza da carne. Quantas vezes nos contaminamos interiormente
com sentimentos e decisões que desagradam a Deus, que nada têm a ver com o Pai,
afundando-nos na impureza da alma. Trocamos a paternidade de Deus pelo que
contamina.
(v. 2-7) O apóstolo vai relatar que, diante das lutas internas e externas que
enfrentou, foi a vinda de Tito que trouxe consolo. Não só a chegada de um indivíduo,
mas as boas notícias dos coríntios também foram consolo de Deus para Paulo.
Todos encaramos lutas externas e internas; talvez você esteja passando por um
momento de extremo cansaço, sentindo-se abatido. A questão é que uma forma de
encontrarmos o consolo de Deus quando estamos abatidos é através de relações
profundas que compartilham vida, que sentem falta da ausência, que se preocupam. O
problema é que, muitas vezes, nos fechamos para esse tipo de consolo. Quer seja por
falta de confiança, medo de incomodar ou vergonha de demonstrar fraqueza, muitos de
nós tentam carregar tudo sozinho. Temos medo ou não fazemos questão de buscar apoio
nos irmãos da igreja; tratamos o ambiente apenas como religioso e esquecemos que
temos algo em comum. Assim, não percebemos o consolo de Deus e carregamos o fardo
pesado sozinhos.
2. Converte a tristeza em arrependimento (v. 8-10)
(v. 8-10) Paulo volta a comentar sobre sua carta anterior — que alguns dizem ter
sido a primeira carta ou mesmo alguma outra à qual não temos acesso. O fato é que
Paulo foi duro nas palavras e tem consciência disso, mas ele crê que a tristeza gerada em
Deus não causa remorso, mas sim salvação. Há algo profundo aqui...
Ao criar o ser humano à sua imagem e semelhança, tudo era em perfeita
harmonia. Porém, tentado por Satanás, o ser humano acaba cedendo à tentação de
querer ser como Deus, e o caos entrou na humanidade. A nossa realidade hoje é uma
realidade contaminada, na qual buscamos nos virar sozinhos com nossas crises.
Mas Deus, em seu plano maior, desceu à terra e, na pessoa de Jesus, se fez
homem e habitou entre nós, e em nada se contaminou. Jesus se entregou na cruz e,
mesmo só, se manteve firme no seu propósito de salvar a muitos e torná-los filhos de
Deus. Após o terceiro dia, Ele ressuscitou e, subindo aos céus, deixou o Seu Espírito para
consolar os Seus discípulos e converter a tristeza em arrependimento.
Na última ceia, de Jesus com seus discípulos, encontramos dois exemplos de
tristeza pelo pecado. Um é Judas, que traiu Jesus e seu remorso o conduz a tirar a
própria vida (Mt 27.3-5). O outro é Pedro, que negou Jesus, porém sua tristeza se
converte em arrependimento, e Jesus o restaura (Jo 21.15-17). Qual a diferença? O
encontro com Jesus ressurrecto, que converte a tristeza do pecado em arrependimento.
Há vários tipos de tristeza que podem estar afligindo o nosso coração, mas saiba
que, em Cristo, toda a nossa tristeza é convertida em salvação. Você não precisa ter
remorso dos seus pecados; a cruz de Cristo e a vida com Jesus nos levam a nos
arrepender e viver uma nova vida. Você não precisa sofrer sozinho com suas lutas; na
comunidade dos arrependidos, consolamos uns aos outros, pois nos identificamos na
cruz.
3. Está no arrependimento e comunhão (v. 11-16)
(v. 11) Paulo então, consolado pelas notícias de Corinto, explana o verdadeiro
arrependimento, diferentemente das escolhas que contaminam o corpo e a alma. Nesse
versículo, temos uma diferença de tradução se comparada ao original. Isso ocorre porque
algumas palavras no original exigem uma maior explicação ao serem traduzidas para o
nosso idioma. Então, para Paulo, o verdadeiro arrependimento produziu nos coríntios:
defesa (dedicação em se desculpar/retratar); indignação (contra os pecados); temor
(consciência da prestação de contas); anseio (preocupação e cuidado com a vida de
Paulo); zelo (intensidade máxima no arrependimento) e punição (desejo de ver a justiça
feita) - conforme o NT Grego (Nestle-Aland). Independente da tradução, fica claro que
Paulo está falando sobre o reflexo de um verdadeiro e profundo arrependimento.
Diferente das escolhas que contaminam o corpo e a alma, o arrependimento
verdadeiro nos leva a nos defender — não no sentido de inventar desculpas, mas de nos
dedicarmos a reconhecer nossas falhas e pedir perdão. Essa dedicação em se retratar nos
leva a nos arrepender a todo tempo. O arrependimento verdadeiro nos faz indignar
contra nossos próprios pecados, não aceitando os mesmos erros de sempre. Ele nos leva
a ter temor de Deus, lembrando que um dia prestaremos contas de nossos atos; isso é
sério. O arrependimento verdadeiro nos motiva a ansiar, preocupar-nos e cuidar das
pessoas e da missão. Leva-nos a ter zelo e a ser intensos em tudo isso. Por fim, leva-nos
a desejar a punição — não nos outros, mas a ver a justiça de Deus sendo executada em
nós, pois nada temos a temer: afinal, em Cristo, vivemos o verdadeiro arrependimento.
(v. 12-16) O apóstolo encerra dizendo que encontrou encorajamento ao estar com
Tito. É interessante que essa alegria que tomou o coração de Paulo nasce do fato de ele
ouvir que Tito também foi consolado ao ver a obediência e o temor a Deus dos coríntios.
Abra-se para o consolo de Deus através das pessoas. Deus consola os abatidos e
Ele faz isso através da igreja. Portanto, pare com as desculpas baseadas em decepções e
busque construir laços profundos. Se não deu certo em um GC, tente em outro; se não
houve reciprocidade de alguém da equipe, tente com outra pessoa, mas lembre-se de
que temos um ponto em comum: o verdadeiro arrependimento, e isso nos revela o
consolo de Deus. Repense também se você está sendo o consolo de Deus para alguém.
Aja com obediência e temor; fomos chamados para também ser consolo de Deus na vida
do próximo. Nossa vida de arrependimento precisa gerar consolo à nossa volta.