Categoria: Artigos
Data: 26/04/2026
Introdução/Contextualização
Hanani estava de volta. Ao retornar do palácio real, o que trazia no semblante era
o puro desânimo. Muitos de seus familiares e conhecidos, confortáveis no coração da
Pérsia, estão empregados, vivendo bem e não pretendem voltar para uma cidade com
muros e portas destruídas. O peso recai sobre os que restaram; eles vão ter que se virar
sozinhos, sem recursos, sem proteção e ainda conviver com o orgulho daqueles que
parecem não se importar com o sofrimento alheio.
Passado alguns meses, a miséria só cresce. Onde deveria haver uma povo unido
pela dor, há exploração: pessoas com um pouco mais de poder já se aproveitam dos que
não têm nada. Parece que os setenta anos de exílio não serviram de nada; o orgulho
ainda governa os corações, e as pessoas continuam vivendo pelas suas causas pessoais.
Em uma manhã qualquer, Hanani levanta para mais um dia difícil. Ao organizar as
coisas em sua casa, pela pequena janela de barro, ele avista de longe um grupo de
homens a cavalo vindo em sua direção. Ao chegarem mais perto, ele percebe alguém
conhecido: é seu irmão. Aquela visita na Pérsia não foi em vão. Subitamente, uma
esperança ressurge no coração de Hanani: a reconstrução do lar finalmente começaria.
Seu irmão o abraça e diz: “Tem lugar em sua casa para seu irmão?” Hanani o
abraça levando para dentro de sua casa. Eles conversam sobre muita coisa, mas seu
irmão não fala sobre o motivo de sua vinda.
Após alguns dias, o irmão de Hanani convoca todos os líderes e apresenta um
projeto audacioso: reconstruir os muros e portas da cidade. Muitos se alegram com isso;
outros, resmungam e discordam. A pergunta que ecoa é uma só: “Como reconstruiremos
se não temos mão de obra e nem recursos para isso?” Para os que desejam a
restauração, a resposta é a união por uma causa maior. Para os que resistem, o medo é o
sacrifício: o orgulho os impede de abandonar seus privilégios para colaborar.
É nessa realidade que vamos nos aprofundar em Neemias 3.

1. Se sujeita com humildade (v. 1-5)
Já nos primeiros versículos temos algo interessante: o relato do sacerdote e de
seus colegas sacerdotes participando da reconstrução. Eles possivelmente não sabiam
nada sobre reconstrução, mas a necessidade exigiu um novo desafio (v.1). Porém, um
problema surge em um dos participantes da reconstrução: os nobres da região de Tecoa
não quiseram ajudar e, com isso, não se sujeitaram a ordem do seu supervisor.
Diante das necessidades, muitos não se sujeitam aos novos desafios. Por exemplo,
você cresceu em um lar onde a dificuldade de dialogar sempre foi uma realidade; porém,
agora, a crise em que vocês se encontram exige um novo modelo de lidar com as coisas,
mas você não se sujeita a esse desconforto e prefere não mudar. Um outro exemplo: a
sua família passa por uma crise financeira e, diante da necessidade, algumas coisas
supérfluas teriam que ser cortadas. Quem não trabalhava teria que arrumar um emprego
e quem insistia com uma vocação talvez tivesse que encarar um trabalho de que não
gosta, mas não queremos nos sujeitar e deixamos a família continuar se destruindo. São
pais conservadores que agora precisam lidar com a realidade nova dos filhos; são filhos
que estão imersos em uma cultura promíscua e não querem lidar com os princípios de
seus pais. Nesse conflito de gerações em que precisamos encarar e agir para reconstruir,
nós escolhemos não se sujeitar a ninguém, por orgulho, desunindo nossa família.
O problema é o orgulho. Muitos não se sujeitam pois o orgulho os impede de se
rebaixar. Não aceitam rebaixar o padrão de vida, nem aceitam a culpa pelas decisões
erradas; não aceitam abrir mão de suas coisas pela proteção ou reconstrução do lar.
Outros não se sujeitam pelo orgulho de estar no comando: são filhos que não aceitam a
liderança dos pais, são cônjuges que administram as finanças pelas costas uns dos outros,
são pais que não reconhecem que estão errados, mesmo quando estão. Ainda, muitos de
nós não nos sujeitamos diante de Deus quando não nos atentamos para o que Ele está
fazendo na vida dos nossos familiares. Às vezes até atrapalhamos, fugimos de orar, de
jejuar e de consagrar nossa casa, fomentando uma família orgulhosa e sem união.

2. Trabalha por uma única causa (v. 6-12)
Interessante que o texto nos apresenta pessoas diferentes, com dons diferentes,
gêneros e idades diferentes, mas que, nesse momento, estão unidas por um mesmo
propósito: a reconstrução de seus muros e portas (v.6-9). Alguns ajudaram com o que
podiam, em frente de casa (v.10). Os detalhes do governador Salum e da ajuda de suas
filhas só mostram que a reconstrução é para todos terem a mesma causa (v.11-12).
Como reconstruir uma casa onde cada um tem suas causas? Primeiro, é importante
entender que esse não é um problema só de nossas famílias; isso começa bem antes...
No início de tudo, Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, e eles,
como família, viviam em harmonia; a causa era a relação com Deus. Porém, Adão e Eva
são tentados pelo orgulho de estar no comando e não se sujeitam a Deus, e essa busca
pela autonomia gera o caos. As famílias na história vivem essa falta de sujeição e orgulho
porque cada um busca lutar e viver pela sua própria causa.
Mas Deus tinha um plano de resgate para a humanidade e, através da pessoa de
Jesus, Deus se faz homem, desce à terra e vive entre nós. Sem orgulho algum e submisso
em tudo, Ele morreu pelos nossos pecados. Seu corpo esmagado e seu sangue
derramado nos trouxeram perdão, mas sua ressurreição restaurou nossa causa como diz
em Colossenses 1.21-23, viver para Ele e relacionar-se com Ele, tendo um vislumbre do
dia em que Ele voltará e não haverá mais mal nenhum.
Assim, Cristo precisa ser a causa. Algumas causas podem ser o caminho de
entrada para a família se unir, mas as pessoas mudam, nós mudamos e, com isso, nossas
causas vão se desalinhando. A única causa de que sua família precisa para reconstruir a
união é Cristo. É a fé na vida e na ressurreição de Cristo, na mudança aqui e na salvação
eterna, que realmente nos dará motivos para nos sujeitarmos e sermos humildes, para
caminharmos em união. Cristo é a causa que nos une.

3. Colabora uns com os outros (v. 13-32)
Algumas lições que podemos aprender com Neemias sobre colaboração:
a) Reconhecendo os pequenos esforços. Neemias destaca a grande obra de
Hanum e seus companheiros de Zanoa, mas também honra Malquias, que ajudou com
uma porta (v. 13-14). É interessante como oramos pelos nossos familiares e conversamos
sobre as mudanças, mas desprezamos os pequenos esforços. Quer seja algo simples ou
pequeno, se é um esforço de mudança, valorize e reconheça; é assim que se reconstrói.
b) Abandonando a altivez. Neemias chama vários governadores para o trabalho, e
vários precisam abandonar suas posições e privilégios para colocar a mão na massa
(v.15-16). Esteja disposto a recomeçar, a abandonar os seus interesses, a deixar a posição
de comando; não seja essa pessoa que olha para seu cônjuge, seus filhos ou pais como
se fosse o mais inteligente, o mais experiente e sábio; abra-se para colaborar.
c) Delegando e confiando. Neemias confiou em vários governadores e líderes, até
porque ele não daria conta sozinho (v.17-21). Você precisa delegar e confiar. Eu sei que é
difícil confiar em quem já errou, mas reconstruir sozinho um casamento ou uma relação
de pais e filhos é impossível. Delegue ensinando seus filhos sobre o que é correto e
confie que eles farão. Delegue conversando de forma sincera com seu cônjuge e confie
que ele cumprirá o que vocês combinaram. Só há reconstrução quando fazemos juntos.
d) Dando o exemplo. Os sacerdotes dão o exemplo; eles são autoridades, mas,
diante da necessidade, saem do conforto e encaram novos desafios (v.22-30). Não
adianta você cobrar reconstrução do seu cônjuge se você é mentiroso e briguento. Você
pode dizer o que seus filhos devem fazer, mas ficará difícil de ouvirem quando olham a
forma como você trata seus pais. Não adianta criticar seus pais por não confiarem em
você se você age com desrespeito e faz coisas escondido. Comece sendo exemplo.
e) Vivendo em Cristo. O capítulo inicia com a Porta das Ovelhas sendo
reconstruída pelos sacerdotes (v.1) e encerra com a Porta das Ovelhas (v.31-32). Vale
lembrar que a Porta das Ovelhas, como o próprio nome já diz, é por onde as pessoas
entravam com os animais para sacrificar a Deus. Jesus vai dizer que Ele é a Porta das
Ovelhas (João 10:7). Há uma aplicação óbvia aqui: tudo começa e termina em Cristo. Só
haverá uma família submissa, que não é guiada pelo orgulho e que colabora uns com os
outros, se Cristo for o centro desse lar, se começar com Ele e terminar com Ele.

Autor: Pastor Kariston   |   Visualizações: 17 pessoas
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