Categoria: Artigos
Data: 10/08/2026
Introdução
Talvez, ao se deparar com esse tema, algumas ideias surjam em nossa mente:
a) Consumismo: Podemos pensar que uma igreja irresistível é aquela onde as
pessoas não precisam fazer nada, pois tudo já está pronto: elas pagam o dízimo e
recebem a bênção, a palavra, a vida espiritual e a salvação.
b) Bem-Estar: Outros podem pensar que uma igreja irresistível é um lugar onde
ninguém sente desconforto ou incômodo — onde tudo é feito para que se sintam bem.
c) Perfeição: Para alguns, uma igreja irresistível só pode ser uma igreja perfeita, na
qual tudo funciona: a música impacta, a palavra ensina e emociona, o espaço é ótimo, os
irmãos não têm defeitos e tudo tem qualidade sob medida para o nosso gosto.
Se não são essas coisas, o que torna uma igreja verdadeiramente irresistível?
Quando olhamos para a vida dos primeiros discípulos, encontramos a descrição de
uma igreja irresistível (Atos 6.7). Por outro lado, isso não significa que ela era perfeita —
muito pelo contrário. Nessa mesma igreja, havia gente que contribuía mentindo (Atos
5.3), murmuração por discriminação (Atos 6.1), perseguição e dispersão (Atos 8.1), crise
teológica e legalismo (Atos 15.1) e divisão na liderança (Atos 15.39).
Então fica a pergunta: o que torna uma igreja verdadeiramente irresistível? Se ela
não é feita para consumistas, nem focada apenas no bem-estar ou na perfeição, e ainda
está repleta de pessoas difíceis, crises e dificuldades, como ser uma igreja irresistível?

Contextualização
Ao deixar Tito em Creta, Paulo diz algo essencial: “coloque em ordem o que ainda
falta” (Tt 1.5). Esse versículo-chave dessa carta tão profunda mostra que o que torna uma
igreja irresistível não são os seus métodos ou a sua estrutura. Ela não é voltada para o
consumo, o bem-estar ou a perfeição, mas é uma comunidade que está sempre em
movimento — alinhando continuamente o porquê e o como cumpre a sua missão: uma
igreja que compartilha o evangelho.

1. Exige pôr a igreja em ordem (v. 5-16)
Na organização da igreja, Tito precisa constituir presbíteros - πρεσβυτερος:
ancião, líder, experiente (v.5). Podemos ir além do cargo e nos apegar ao princípio de
que a igreja precisa de homens e mulheres maduros para liderá-la. Por quê? Porque no
meio da igreja há quem afirme conhecer a Deus, mas o nega em suas atitudes (v.16).
Sou evangélico desde a infância e já fui alguém que se decepcionou com a igreja.
No entanto, tive que entender que, em vez de terceirizar a responsabilidade pelo que os
outros fazem de errado, eu precisava olhar para mim mesmo e perguntar: “Tenho sido
alguém que ajuda a igreja a se tornar irresistível ou contribuo para desordená-la?”
A resposta está no tipo de discípulo que Tito precisa constituir:
a) Um discípulo cujo lar é guiado por Cristo (v.6): Muitas vezes fazemos o oposto —
somos pais que não dialogam com os dilemas dos filhos, filhos rebeldes que não
respeitam os pais ou cônjuges que se enganam e se atacam, apresentando um lar que se
diz guiado por Cristo, mas que se mostra pior do que o de quem não O conhece.
b) Um discípulo com domínio próprio (v.7): Muitas vezes agimos sem controle
algum: não dominamos a língua, a raiva, o rancor ou o consumo, e nos deixamos levar
por vícios e explosões de ira.
c) Um discípulo acolhedor (v.8): Muitos fazem o contrário: não acolhem os novos,
preocupam-se apenas em alimentar o próprio intelecto teológico e se esquecem dos
famintos, fechando-se em suas "panelinhas" de amigos e ignorando os solitários.
d) Um discípulo conhecedor, que encoraja e repreende (v.9): Algumas vezes,
escolhemos não intervir nem nos envolver na vida de ninguém. Outros preferem
encorajar sem jamais repreender, dizendo apenas palavras agradáveis e fugindo do
confronto. Há ainda os que não encorajam e apenas criticam, apontando os erros sem
oferecer soluções.
John Stott afirma que: “A verdadeira religião é divina em sua origem, espiritual em
sua essência e moral em seu efeito.” Ou seja, uma igreja irresistível precisa colocar a
religião em ordem, tendo em vista apenas o que vem de Deus e deixando as tradições
em segundo plano. Deve lembrar que uma vida espiritual fortalecida é mais essencial do
que formas religiosas, e que uma conduta moral exemplar é o fruto natural de tudo isso.

2. É afirmar que só Cristo salva (v. 1a)
Antes de abordar diretamente a missão de Paulo, precisamos esclarecer o
significado e a profundidade do termo “eleitos”. João Calvino, teólogo reformador do
século XVI, ao comentar esse trecho, afirma: “Com o termo ‘eleitos’ ele indica [...] todos
quantos foram escolhidos desde o princípio do mundo. Sua intenção é mostrar que não
ensina nenhuma doutrina que não esteja em harmonia com a fé de Abraão...” Calvino
nos ajuda a enxergar que Paulo não está usando uma palavra solta ou técnica, mas nos
conectando à grande narrativa da redenção divina:
No princípio, Deus criou a humanidade à Sua imagem e semelhança para viver em
comunhão plena, em um mundo sem dor, desordem ou pecado. Contudo, ao tentar
usurpar o lugar de Deus e governar a própria vida, o ser humano quebrou essa aliança. O
pecado entrou na história e o caos tomou conta do nosso coração e das nossas relações.
Deus não abandonou a Sua criação à própria sorte. Ele escolheu e elegeu Abraão
para, a partir de um homem e de um povo, iniciar um plano de resgate global. A
promessa era clara: através da aliança com esse povo, todas as famílias da terra seriam
abençoadas e resgatadas da condenação.
Toda essa história iniciada no Antigo Testamento encontra a sua resposta definitiva
em Cristo. Deus se fez carne, habitou entre nós e carregou sobre Si o peso das nossas
culpas. Na cruz, Jesus pagou a dívida do nosso pecado; no domingo de ressurreição, Ele
venceu a morte. A fé nessa vitória é a nossa certeza de que Ele voltará para restaurar
todas as coisas. Até lá, sustentamos que a salvação é um presente imerecido, vivido
exclusivamente pela Sua graça.
Assim, uma igreja irresistível entende que não é ela quem salva, quem tem poder
ou quem elege os discípulos de Jesus — tudo isso é obra de Cristo. Independentemente
de a nossa igreja ser irresistível ou não, o ato de salvar pertence a Deus, e Ele continuará
salvando a quem quiser. A pergunta fundamental que precisamos nos fazer não é "como
nós podemos salvar as pessoas?", mas sim: "Temos sido um canal saudável e fiel para
acolher e servir os eleitos que Deus decidiu salvar?" Quando tiramos de cima da igreja o
peso de ser a "salvadora" e colocamos os nossos olhos naquele que é o único Salvador,
nos tornamos uma comunidade profundamente apaixonada pela missão. É a isso que
exploraremos no próximo ponto.

3. É focar no que realmente importa (v. 1-4)
Paulo se coloca como servo de uma missão. Há uma tarefa que lhe foi confiada e,
como servo, ele assume uma responsabilidade. A responsabilidade que Tito precisará
colocar em ordem para que aquela igreja se torne irresistível envolve:
a) Conduzir ao conhecimento da verdade (v.1): Não adianta falarmos mil palavras
bonitas se as pessoas não forem levadas ao conhecimento da verdade. O nosso objetivo
aos domingos — e o nosso propósito em ser uma igreja irresistível — é fazer com que as
pessoas que Deus nos traz venham a conhecer a verdade. Essa verdade abrirá o caminho
para a prática da piedade, ou seja, da fidelidade a Deus.
b) Fundamentar na esperança da vida eterna (v.2): A maioria das religiões fala
sobre evoluir como ser humano, amar o próximo, ser honesto e paciente. No entanto, o
cristianismo é a única fé cujo Mestre promete a vida eterna. Só Cristo e a Sua história
garantem uma vida superior a esta da Terra. Portanto, uma igreja irresistível e tudo o que
é proclamado nela precisam estar fundamentados no eterno, o que se reflete em nosso
viver hoje.
c) Pregar e expor a Palavra (v.3): Desde o início do nosso culto, a Palavra está
sendo pregada: em cada canção, nas orações e no momento em que paramos para ouvir,
ler e refletir Nela. Sei que alguns prefeririam que eu falasse mais sobre cura, vitória ou
prosperidade. Sei também que agradaria a outros se eu recheasse a pregação com
contexto histórico, vocabulário grego e citações teológicas. No entanto, a nossa missão é
simplesmente pregar a Palavra.
d) Ter um coração espiritualmente paterno (v.4): William Hendriksen comenta que a
palavra “filho” é muito feliz porque une duas ideias: “eu te gerei” e “tu és muito amado
por mim”. Uma igreja irresistível é aquela cujo domingo reflete o amor de Deus Pai —
onde os filhos que um dia foram acolhidos agora tratam como filhos aqueles que estão
distantes, alegrando-se com a sua presença e esforçando-se para que esse dia seja o
melhor lugar onde poderiam estar: o lugar de uma nova vida.
Lembre-se: “Todo domingo é a nova vida de alguém.” Se você já tem vivido essa
nova vida, agradeça a Deus, ore por aqueles que ainda não A conhecem e coloque em
prática esta palavra para alcançar outros. Mas se você está encontrando uma nova vida
hoje, quero dizer: sinta-se em casa, você é especial. Deus o ama demais, Ele é o seu Pai e
o chama para fazer parte desta comunidade de discípulos. Não o convido para uma
igreja perfeita, mas será uma alegria ter você construindo conosco uma igreja irresistível.

Autor: Pastor Kariston   |   Visualizações: 15 pessoas
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