Categoria: Artigos
Data: 20/07/2026
Introdução
1892, esse é o ano em que nasceu Tolkien, um escritor que provavelmente você já
ouviu falar por obras como O Hobbit e O Senhor dos Anéis.
Praticamente toda a história desse mundo fantástico gira em torno de um anel
maligno que concede poder ao seu usuário, mas, ao mesmo tempo, desperta
aquilo que existe de pior em seu coração: a vaidade, o orgulho e a ganância.
Ao longo da história, um grupo é formado para destruir esse anel. Mas essa missão
nunca é simples, porque, em vários momentos, alguém acaba desejando usar o
anel para conquistar poder. Aos poucos, é dominado por ele, e aquilo que unia o
grupo começa a se desfazer. Antigas rivalidades reaparecem, o orgulho toma conta,
a ganância cresce e, em pouco tempo, a unidade de pessoas tão diferentes se torna
insustentável. É mais ou menos sobre uma situação como essa que Paulo vai falar
em Filipenses 2.
Na humildade (1-4)
Paulo inicia o capítulo argumentando a partir de uma premissa que já era
considerada verdadeira pelos seus leitores. Se eles estavam em Cristo e, por isso,
podiam afirmar que experimentavam seu amor, sua consolação e sua comunhão,
então deveriam viver de maneira coerente com essa realidade. Eles deveriam viver
unidos.
Aqui é bom pararmos um pouco, porque, em uma primeira leitura, parece que o
ponto principal de Paulo é apenas a unidade. Mas, quando continuamos lendo
atentamente o texto, percebemos que ele está indo mais fundo. A unidade é
consequência; a humildade é a raiz.
Isso fica ainda mais evidente nos versículos 3 e 4. Paulo descreve tudo aquilo que
destrói essa humildade: ambição egoísta, vanglória e uma vida voltada apenas para
os próprios interesses.
Recentemente, eu e algumas pessoas da igreja fomos a uma conferência com mais
de mil participantes. Tivemos a oportunidade de assistir palestras em salas
diferentes e, por isso, voltávamos com experiências diferentes para compartilhar.
Lá eu vi uma cena que, provavelmente, todos nós já presenciamos alguma vez. Três
pessoas conversavam sobre aquilo que tinham aprendido. Quando chegou a vez de
uma delas falar, ela foi interrompida uma, duas, três... talvez cinco vezes. Sabe
quando você começa a contar alguma coisa e a outra pessoa responde
imediatamente: "Ah, isso eu já sei..."? Isso é só um recorte de uma realidade maior,
confesso que eu me peguei cortando a fala de outros muitas vezes depois disso,
essa realidade é a do egoísmo que me faz viver tão acelerado naquela velocidade
2x do Whatssapp que não tenho tempo de escutar os outros na em casa, é a realidade do orgulho de eu ser quem sou e o que tenho, é o cargo que eu lutei pra
ter e agora eu não consigo valorizar quem tem um cargo abaixo. É uma realidade
onde eu me fecho nas minhas convicções teológicas, me contento em escutar a
repetição de teólogos do passado, mas não mova uma palha para ser relevante na
vida de alguém de fora. Essa é a realidade onde muitas pessoas vão desconsiderar
tudo que vocês falarem depois de souberem que vocês são cristãos, porque essas
pessoas já foram magoadas por quem se dizia cristão.
Quando a humildade é quebrada, tudo o que está além do nosso próprio nariz perde
importância.
É por isso que Paulo escreve: "Não cuidem somente dos seus próprios interesses,
mas também dos interesses dos outros." Mas, se todos nós tendemos
naturalmente a olhar primeiro para nós mesmos, qual é o padrão que a igreja
deveria seguir? Os versículos 5 a 11 respondem exatamente essa pergunta.
Em Cristo (5-11)
Paulo apresenta uma das declarações mais belas de toda a Escritura sobre a
pessoa de Cristo. Em poucas palavras, ele resume não apenas a história do Deus
Filho, mas o próprio Evangelho. No Reino de Deus, é perdendo que se ganha; é na
humildade que vem a exaltação.
Existe algo maravilhoso nesse texto. Deus exalta Jesus justamente por causa da sua
humilhação. Cristo é exaltado para que todos os que nele creem sejam redimidos
da condenação trazida pelo primeiro homem, que, em Gênesis, agiu movido pela
ambição, pelo egoísmo e pela vaidade, desobedecendo a Deus e deixando a marca
do pecado em toda a criação.
A resposta para a pergunta sobre quem a igreja deveria imitar é simples: Jesus.
Sempre foi e sempre será. É ele quem nos impulsiona a perder para ganhar. É ele
quem nos move a fazer pelo outro como faríamos por nós mesmos. É ele quem nos
ensina a sentar à mesa com quem pensa diferente, a ouvir antes de falar, a gastar
tempo com algo que vai além dos nossos próprios interesses.
Se procurarmos um exemplo de humildade real fora de Cristo, não vamos
encontrar. A Palavra de Deus deixa claro que humildade não é pobreza, não é
filantropia e nem simplesmente uma questão de personalidade. Humildade é
aquilo que Cristo produz em nós.
Nenhuma transformação real do nosso antigo eu acontece longe da pessoa de
Jesus. Você pode fazer cursos, participar de mentorias e aprender técnicas para se
tornar uma pessoa melhor. Mas o que realmente transforma a sua vida, a minha
vida e o mundo é o Evangelho de Jesus Cristo. Indo para o fim, Paulo fala sobre
como isso tudo age em nós.
Em nós (12-18)
Paulo continua dizendo que aquela igreja sempre foi obediente, tanto quando ele
estava presente quanto agora, em sua ausência. Por isso, incentiva a comunidade
a colocar em prática a salvação que recebeu. Basicamente ele recapitula o início
do capítulo, quando ele usou a premissa que já era verdadeira a todos.
Então, a vontade deles já não era mais apenas deles. O trabalho deles já não era
apenas deles. A vida deles agora pertencia a Deus. Ou seja, tudo estava realinhado
a loucura do Evangelho. Em meio a uma geração corrompida, eles eram chamados
a viver de forma pura, irrepreensível e sem murmuração.
Por quê? Porque não se tratava deles, assim como também não se trata de nós.
Tudo gira em torno do sacrifício de Cristo e da obra de Deus no mundo.
Por isso, eles eram chamados a viver em humildade, investindo tempo uns nos
outros, colocando seus interesses a serviço da comunidade e entendendo que a
obra da redenção não depende da força humana.
É o próprio Deus quem realiza essa obra em nós. Nos versículos 17 e 18, vemos até
onde essa humildade pode chegar.
Mesmo preso, mesmo sofrendo, mesmo sabendo que sua vida estava sendo
derramada como oferta, Paulo continua alegre. E mais do que isso, convida a igreja
a participar da sua alegria. É como se dissesse: "Permaneçam comigo, vivam essa
mesma alegria, vivam essa mesma humildade."
Isso nos faz refletir. Onde podemos então demonstrar a humildade em Cristo em
nós nos nossos dias? Em casa, eu posso agora sentar a mesa, conversar sem olhar
o relógio ou o celular, demonstrar interesse como eu demonstraria com qualquer
pessoa que eu estivesse conhecendo naquele momento.
No trabalho, através do exemplo de Jesus eu consigo não só conviver mas também
considerar as pessoas que exercem cargos diferentes do meu como pessoas
importantes também. Porque eles não são máquinas, são homens e mulheres de
carne e osso que falham, que erram e que assim como eu dependem infinitamente
de Deus.
É tomando Jesus como exemplo e só assim que na igreja, sou levado a entender as
doutrinas da fé e a teologia, mas sempre pensando em como isso me capacita e me
torna alguém que se preocupa de forma real com as pessoas que ainda não
conhecem a Cristo, porque o estudo não é um problema, mas um estudo que me
cega para o outro, esse não é humilde e esse não é de Cristo. Só tendo os olhos da
humildade de Cristo que eu deixo de olhar para as paredes da igreja e começo a
olhar para as pessoas da igreja. É só tomando essa humildade, que você que está chegando agora cheio de traumas
do passado, totalmente descrente pelas histórias, pensando já saber dessas
“coisas religiosas” desse “papo de igreja”, é só assim que você vai poder se
reconhecer vulnerável e deixar ser cuidado por outras pessoas.
Se existir alguma maneira com que o outro faça parte do meu interesse, então ainda
tem uma maneira de caminharmos unidos.
Minha oração
Minha oração é que nossos corações sejam transformados, dia após dia. Que
tenhamos uma vida cada vez mais parecida com a de Cristo. Que não sejamos
dominados pela ambição, pelo egoísmo ou pela vaidade. Mas que caminhemos em
humildade, interessando-nos verdadeiramente pelos outros, para a glória de Deus.