Categoria: Artigos
Data: 08/06/2026
Introdução/Contextualização
Foram dias marcantes. Jesua e sua equipe de músicos cantaram com alegria, o
povo comeu e bebeu junto, chorou de emoção ouvindo Esdras ler o Livro, a Palavra de
Deus. Fazia gerações que esse povo não sabia o que era celebrar de verdade, já que
foram 70 anos de exílio e quase 3 meses reconstruindo os muros e as portas de
segurança.
Mas a festa acabou. As folhas das cabanas começaram a secar, a murchar, e alguns
líderes continuaram se aprofundando na Palavra. Depois de alguns dias, um silêncio
pesado tomou conta dos corações.
Jesua, junto com outros levitas, se posicionou ali no pátio enquanto via o povo
entrar pelos portões. Ele sente um nó na garganta. Sumiram as roupas limpas, sumiram
os sorrisos. O mesmo povo que, alguns dias atrás, estava pulando de alegria, agora vinha
arrastando o pé, vestindo pano de saco rasgado e com a cabeça cheia de terra e poeira.
O impacto da Palavra trouxe direcionamento diante das dores e traumas, mas
também trouxe consciência. A ficha caiu e eles perceberam que o mesmo
comportamento que destruiu os antepassados, e mandou todo mundo para o exílio na
Babilônia, ainda estava vivo dentro das famílias deles hoje.
O povo entendeu que não dava para maquiar a situação. Ou eles se entregavam
de vez a Deus, vivendo a palavra e confessando seus pecados, ou aquela estrutura toda
que eles tinham acabado de reconstruir ia desabar de novo, porque o problema estava
no afastamento de Deus.
Foi ali, naquele amanhecer cinzento de jejum e pano de saco, que Jesua e sua
equipe guardaram os instrumentos de festa e se prepararam para o clamor. Chega de
celebrar a superfície; era hora de mexer na raiz e se aproximar de Deus.
É nesse pano de fundo que vamos nos aprofundar em Neemias 9.
1. Se entrega (v. 1-5)
Depois de 24 dias estudando a palavra, eles vão da festa para a humilhação e
começam rompendo com os estrangeiros (ben - filho/descendente; a ideia não é racial,
mas espiritual, é de romper com o que afasta da santidade). Isso tudo porque eles
percebem a triste consequência de caminharem distante de Deus (v.1-2). Isso é
manifestado em 6 horas de reunião, onde se dedicaram à palavra e à confissão de
pecados, desembocando em um ambiente de adoração e glorificação a Deus (v.3-5).
Enquanto pensava nesse ponto, me lembrei da canção: “Tudo entregarei, tudo
deixarei, sim por ti Jesus bendito, tudo deixarei”; mas, antes que eu terminasse de cantar,
o Espírito Santo me falou através dos apontamentos desse texto: "Será que você
realmente entrega tudo mesmo?” Confesso que pensei nisso por todo o sermão.
Muitas vezes oramos, cantamos e dizemos que tudo está entregue a Deus, mas
mantemos em nossas vidas algumas coisas que nos levam para longe. Podem ser
sentimentos, situações e até pessoas; e parte delas nós já tratamos nessa série até aqui.
Mas reflita com sinceridade: sua entrega a Deus condiz com os acordos, segredos,
pensamentos e atitudes que você tem tido, ou eles te afastam da vontade de Deus?
O problema é que, quando não rompemos com as coisas que nos afastam de
Deus, nós colhemos consequências tristes em nosso lar. Então fica difícil, pois oramos a
Deus pelas lutas, dores, tentações, mágoas e traumas que, muitas vezes, são
consequências de nosso afastamento do Criador, mas ainda continuamos em um
caminho que não rompe com o que nos afasta de Deus. Contraditório, não?
Entregar-se à palavra (crer, entender e viver) e praticar a confissão (reconhecer
pecados, falhas e limitações) gera um ambiente de adoração e glorificação a Deus. O
problema é que, em nossos lares, não seguimos a palavra, seguimos o coração; em vez
de confessar, o orgulho nos leva a apontar; assim, nossas famílias se tornam um ambiente
desprotegido, impossível de reconstruir e cada vez mais afastado de Deus.
2. Recebe misericórdia (v. 6-31)
Diante desse ambiente de adoração, os levitas dirigem uma oração que expressa
toda uma grande história do afastamento de Deus. Aliás, não é só daquele povo nem só
de seus antepassados, mas é a história de toda a humanidade, a grande história bíblica.
(v.6) - Deus criou todas as coisas: natureza, animais e humanidade; e ele deu e
continua dando vida, sustentando tudo. Mas o ser humano decidiu se afastar de Deus, e
o caos foi gerado. Todo o mal que nos alcança é fruto desse rompimento com o Criador.
(v.7-8) - Mas Deus é misericordioso e, em amor, separa um homem para que, a
partir da aliança com ele e das bênçãos derramadas, a humanidade pudesse ver e se
aproximar do Criador. E Deus cumpriu sua promessa.
(v.9-22) - Após as gerações de Abraão (Isaque, Jacó, José), passaram-se 400 anos,
e Deus levanta Moisés como líder para trazer direção a Israel. Ele os liberta do Egito e
opera muitos milagres, cuidando deles nos mínimos detalhes no deserto; mas, mesmo
assim, em muitos momentos eles se afastam. Apesar disso, Deus age com perdão e amor.
(v.23-25) - Então, Josué, sucessor de Moisés, conquista grandes vitórias e leva o
povo para a terra prometida a Abraão, onde se tornaram férteis, fortes e prósperos.
(v.26-30) - Porém, quando Josué encerra sua jornada, no período dos Juízes, após
tantos milagres e ações de misericórdia, mais uma vez o povo se afasta do Senhor. Eles
se entregam a essa espiral de afastamento; eles se voltam para Deus, mas logo se
afastam novamente, piorando a cada ciclo, até que vem o exílio de 70 anos.
(v.31) - No fim, os que oram aqui em Neemias sabem que todas as consequências
foram ações da misericórdia de Deus, pois ele sempre se move em direção ao seu povo.
Mas, profeticamente, eles também estão apontando para o maior ato de misericórdia de
Deus, Cristo (Hebreus 1.3). Deus, na pessoa de Jesus, se entregou na cruz pelos nossos
pecados para nos perdoar e nos salvar de nossos delitos. Ele ressuscitou, vencendo a
morte e nos dando um novo caminho, onde nos aproximamos novamente de Deus hoje,
rumo à eternidade.
3. Vive por aliança (v. 32-38)
Os levitas oram pedindo ajuda de Deus diante das aflições que sofreram, crendo e
confiando Nele porque, mesmo nas aflições, Deus sempre foi justo e continuou leal em
todo o tempo; eles é que foram infiéis em muitos momentos (v.32-33). Os levitas, na
oração, reconhecem que muitas vezes na história desse povo os líderes não foram fiéis a
Deus quando tudo estava bem; agora, eles estão em um momento delicado de
reconstrução física e espiritual e, mais uma vez, a angústia os faz voltar-se a Deus e pedir
ajuda, quebrantando-se e reconhecendo os pecados. É nessa perspectiva que eles fazem
um tratado, ou seja, uma aliança com Deus (v.34-38).
Diante das aflições de sua vida e de sua família, diante de tudo que foi
desprotegido ou destruído, muitos querem se revoltar contra Deus, dizer o que
concordam ou não concordam com o que Deus permitiu. Mas vale ressaltar que Deus
continua sempre sendo leal e justo, e muito do que encaramos são consequências de
nossa infidelidade; o que não é, não faz Deus injusto, até porque a vida é muito mais
complexa, e coisas que achamos injustas para nós podem ser consolo para os outros.
Então, em vez de querer brigar com Deus, ficar discordando de como ele permitiu as
coisas ou por ele não ter feito as coisas como você esperava, faça diferente: reconheça o
quanto você foi infiel muitas vezes e ore a Ele, pois só ele pode trazer restauração física e
espiritual para você. Então, confie Nele, pois ele é leal e justo sempre.
Precisamos parar com esse ciclo de buscar a Deus apenas quando as coisas vão
mal ou fogem do nosso controle. Pais, não busquem a Deus só pelo medo do que o
mundo pode fazer com seus filhos; cônjuges, não busquem a Deus só para que ele
transforme seu casamento; filhos, não busquem a Deus só para ter um lar diferente do
que você viveu com seu pai. Rompa com esse ciclo de buscar a Deus só nas problemas,
nas crises e das dores, e seja grato a Deus sempre. Busque-o porque Ele é Deus, Criador,
porque ele é misericordioso, porque só no caminho dele podemos preencher o vazio da
eternidade; só ele nos dá salvação. Então, saia do ciclo de inconstância, mesmo que
tenham sido as lutas que fizeram você mudar, e comece a viver uma vida com Cristo por
você mesmo, por constância, porque Ele é tudo. Viva pela aliança.